dentro de mim há um poeta estranho
que só trabalha sob encomenda
só produz com objetos claros
sempre a desvencilhar-me
de um nó na garganta
ou uma faca no abdômen
ele não escreve sobre pássaros que gorjeiam
nem sobre pedras no caminho
muito menos sobre lesmas
subindo montes imensos
porque eu haveria de me preocupar com isso?
o mundo tão vasto e tão Raimundo
não precisa de minha contribuição
meu poeta só existe
quando eu peço socorro
vem a mim
e de mim tira o fardo
escreve tudo num papel de boteco
e depois permite que eu decida se
vai pro lixo ou
pro enfado
aí é fato
o trabalho foi feito
e relaxo