amigos digo-lhes que não é porque desejo que escrevo
não é porque algo mereça que consigo expressá-lo
escrever não é para mim ato racional nada previsível nem programável
o que faço compara-se mais a um desafogo uma necessidade fisiológica um surto psicótico passageiro
escrever é para mim retirar de dentro alguma coisa que eu já percebo sem ainda conseguir saber
algo que já germinou não cabe mais e precisa sair
sempre que me adianto e a quero urgente, à fórceps ela se aleija só consigo parte do que queria
quando nasce prematura ela é sempre feia faminta carente não raro repugnante
algumas vezes vem berrando pedindo clemência clamando uma revisão de sentença
eu então, enternecido acabo às vezes acreditando que afinal ela é a cara do pai e merece compaixão
então eu a alimento visto-a com os meus parcos recursos e quero apresentá-la como uma linda menina
meus amigos sempre dizem constrangidos: “Que bonitinha essa sua poesia! ”