Parto Poético

amigos
digo-lhes que não é porque desejo
que escrevo

não é porque algo mereça
que consigo expressá-lo

escrever não é para mim
ato racional
nada previsível
nem programável

o que faço
compara-se mais a um desafogo
uma necessidade fisiológica
um surto psicótico passageiro

escrever
é para mim
retirar de dentro
alguma coisa
que eu já percebo
sem ainda conseguir saber

algo que já germinou
não cabe mais e
precisa sair

sempre que me adianto
e a quero urgente, à fórceps
ela se aleija
só consigo parte do que queria

quando nasce prematura
ela é sempre feia
faminta
carente
não raro repugnante

algumas vezes vem berrando
pedindo clemência
clamando uma revisão de sentença

eu então, enternecido
acabo às vezes acreditando
que afinal
ela é a cara do pai
e merece compaixão

então eu a alimento
visto-a com os meus parcos recursos
e quero apresentá-la como uma linda menina

meus amigos sempre dizem constrangidos:
“Que bonitinha essa sua poesia! ”